04 dezembro 2007

Heróis anónimos

Sempre gostei das grandes biografias, das histórias de homens e mulheres notáveis, que se agigantaram em momentos críticos da História. Todos nós crescemos com os seus nomes à cabeceira dos nossos sonhos e ambicionámos ser parecidos. Mas, com a idade, vamo-nos acomodando ao possível.

O grande heroísmo com que sonhámos vai ficando progressivamente mais longe. Cada vez mais longe. Só que surge então a sabedoria de ver, à nossa volta, os heróis anónimos. Os que não têm direito a livro biográfico, nem a nome próprio nos escaparates da fama. Mas que representam um exemplo para todos nós. E que são alguns de vós.

Passo os olhos por eles. Descubro as mães que preparam os seus filhos ainda a manhã não tem luz, os deixam no infantário, partindo para o seu trabalho em transportes públicos a abarrotar. A jornada tem de ser cumprida como se nada mais fizessem e, no regresso, de novo a correria. Apanhar os miúdos, fazer compras, chegar a casa, dar jantar e deitar os miúdos e... preparar um novo dia que será igual. Perante elas me curvo, heroínas anónimas do nosso tempo.

Olho depois os pais que se desdobram numa luta pelo emprego que não está fácil, inventando aqui e além alternativas para compor um magro orçamento familiar. Admiro-os no esforço de se adaptarem aos novos tempos que também deles exigem a co-responsabilidade nas tarefas domésticas e no cuidar dos filhos. Percebo as suas angústias na relação com um mundo diferente dos seus filhos e com a incerteza de estarem à altura das responsabilidades. Perante eles me curvo, heróis anónimos do quotidiano.

Olho também para aqueles miúdos que, contra tudo e contra todos, resistem a condições adversas e não descambam. Que estudam quando o esperado era abandonar. Que alcançam sucesso, anulando o destino traçado de fracasso anunciado. Também perante estes me curvo, meus pequenos heróis desconhecidos.

Mas há mais. Muito mais. O pescador, que entre o frio da madrugada e o vento que faz baloiçar a sua casca de noz, insiste em procurar tirar do mar o seu pão de cada dia, com a salmoura a queimar as mãos e a dúvida a pairar sobre o amanhã. O condutor do comboio que não pode ter tempo para as suas divagações e se verga com a responsabilidade de milhares de vidas nas suas costas. O homem que recolhe o lixo malcheiroso e pesado que multiplicamos todos os dias, com quem nos cruzamos só em noites que regressamos tarde. A enfermeira que vela pelos seus doentes, no silêncio nocturno de um qualquer hospital, à disposição de um pedido de ajuda. O polícia que é, mais uma vez, chamado para acudir quem precisa, não sabendo que perigos esconde a escuridão... e tantos outros.

São heróis e heroínas sem notoriedade pública, mas porventura com muito mais valia humana do que alguns nomes consagrados. Anónimos que vão substituindo, na minha cabeceira, as biografias dos meus heróis de adolescente.

Sem comentários: