Timor-Leste escolhe hoje o seu segundo Presidente da República. Depois de um ciclo que se encerra com muitas nuvens negras a pairar no horizonte, reflectindo meses de crise grave no primeiro país do século XXI, a esperança num novo tempo marca a expectativa dos mais optimistas.
A epopeia bem sucedida da sua libertação fez crer a alguns que Timor seria sempre uma uma história de sucesso. A concretização da última utopia do século passado, libertando um pequeno David das garras de um feroz Golias, assumia-se como garantia que todas as dificuldades nunca seriam suficientemente grandes para que não fossem ultrapassadas pela mesma vontade desse povo heróico. Ora essa expectativa foi ingénua e a realidade, com culpa de todos os protagonistas, tornou-se um pesadelo.
O fim da ocupação e do inimigo externo diluiu solidariedades internas. Enquanto na luta contra a Indonésia, todos se uniam - mesmo que se odiassem – agora, independentes e em democracia, as divisões vêm ao de cima. E, nestas circunstâncias, há muitas vezes a tentação política de substituir o inimigo externo por inimigos internos, para agregar novas solidariedades. Foi o que aconteceu, nomeadamente com a artificial divisão entre lorosaes e lorumonus, separando os timorenses conforme a sua origem do leste ou do oeste do país. A este processo não serão alheios interesses externos que, não sendo os únicos culpados, não deixam de ser preponderantes nestes desenvolvimentos. A definição das fronteiras marítimas de Timor, ainda em discussão e, com elas, o direito a estes recursos, não será estranha a esta crise. O petróleo e o gás natural nunca foram boa notícia para países frágeis.
Mas não devem os timorenses procurar fora desculpa para todos os erros. Não fora os erros políticos cometidos e nenhuma manobra de destabilização poderia ter sucesso. Resulta evidente, para quem conhece Timor, que o principal erro dos últimos anos decorre dum modelo de desenvolvimento que não assentou num efectivo combate à pobreza. A persistência de níveis de desemprego elevadíssimos, nomeadamente entre os jovens, a ausência de investimentos essenciais numa nova rede de infra-estruturas e a incapacidade de colocar a economia a funcionar foram os principais falhanços do poder timorense, protagonizado pela Fretilin. E todos os manuais de política são unânimes no resultado desse alinhamento que dá sempre turbulência, revolta e revolução. Para não fugir à regra, Timor comprovou que desemprego persistente mais pobreza aguda é sempre igual a convulsão social.
Com as eleições presidenciais e legislativas deste ano, Timor-Leste procura um recomeço que permita sarar as feridas recentes e abrir um horizonte de esperança. Só a vitória de Ramos Horta pode garantir as condições para que se comece de novo. Com a esperança de ter aprendido com os erros cometidos.
Correio da Manhã, 9 Maio 2007
23 julho 2007
03 maio 2007
Querer não é poder
O cartaz largo, à beira da estrada, anuncia com estrondo: “Compre o que quiser. Pague quando puder.” acrescentando que, para concretizar este passo de magia, basta pedir o cartão x. Simples...mas desastroso. Esta é, nos nossos dias, uma das maiores pragas da sociedade portuguesa, que se desdobra dos electrodomésticos às viagens, da casa ao carro, do computador à conta do supermercado.
Apesar de rimar, querer nem sempre é poder e, no consumo, confundir as duas coisas é terrível. Graças a uma enorme indústria de crédito ao consumo, dispondo de um marketing agressivo, multiplicaram-se as ofertas que, ilusoriamente, tornam possíveis opções que estariam fora das opções familiares. Tudo parece fácil. Basta pedir. O problema vem depois, quando se percebe que o passo foi maior do que as pernas.
Hoje, em vez de poupar, para eventualmente um dia gastar, gastamos a contar com o que - eventualmente - vamos ganhar. A diferença é óbvia e fruto da mentalidade do tempo. Atrás de facilidades, compramos problemas. Actualmente, milhares de famílias sentem na pele as suas opções insensatas do endividamento que fizeram. Os juros afundam-nas e, quantas vezes, sofrem a humilhação de verem os bens que adquiriram serem penhorados ou retomados pelo credor. Segundo o Banco de Portugal, o endividamento familiar corresponde a 84% do Produto Interno Bruto e, em 2006, o crédito concedido aumentou 11,5%, numa tendência persistente desde os anos 90. Outros dados apontam para que cada família tem, em média, seis créditos (não só na área do consumo, mas também no crédito à habitação e automóvel), e o seu endividamento corresponde a 120% do rendimento. Ou seja deve mais do que a totalidade do seu rendimento.
É urgente inverter este ciclo. Desde logo, pelo lado do consumidor. Quem entra no jogo do crédito fácil deve perceber os riscos que está a correr. Sabendo que quase nunca se destina a bens essenciais de consumo – longe vão os tempos do “fiado” na mercearia do bairro para poder dar jantar à família – as famílias têm de saber dizer não ao acessório que está para além das suas possibilidades efectivas. A solução seria simples e decorre do bom-senso. Primeiro é preciso poder, para depois concretizar o querer do consumo. Mas para isso é preciso não querer parecer mais do que se tem, nem ter mais do que se pode. Bem sei que são valores fora de moda. Mas ainda são os mais seguros e mais sólidos. Evitam grandes dissabores e dão particular sabor ao que se consegue. Por outro lado, é fundamental que as empresas que intervêm neste negócio sejam muito mais exigentes consigo próprias, na regulação ética e deontológica da sua actividade. O que equivale a ser muito mais selectivo na atribuição de crédito ao consumo e incomparavelmente mais sério na propaganda difundida.
Apesar de rimar, querer nem sempre é poder e, no consumo, confundir as duas coisas é terrível. Graças a uma enorme indústria de crédito ao consumo, dispondo de um marketing agressivo, multiplicaram-se as ofertas que, ilusoriamente, tornam possíveis opções que estariam fora das opções familiares. Tudo parece fácil. Basta pedir. O problema vem depois, quando se percebe que o passo foi maior do que as pernas.
Hoje, em vez de poupar, para eventualmente um dia gastar, gastamos a contar com o que - eventualmente - vamos ganhar. A diferença é óbvia e fruto da mentalidade do tempo. Atrás de facilidades, compramos problemas. Actualmente, milhares de famílias sentem na pele as suas opções insensatas do endividamento que fizeram. Os juros afundam-nas e, quantas vezes, sofrem a humilhação de verem os bens que adquiriram serem penhorados ou retomados pelo credor. Segundo o Banco de Portugal, o endividamento familiar corresponde a 84% do Produto Interno Bruto e, em 2006, o crédito concedido aumentou 11,5%, numa tendência persistente desde os anos 90. Outros dados apontam para que cada família tem, em média, seis créditos (não só na área do consumo, mas também no crédito à habitação e automóvel), e o seu endividamento corresponde a 120% do rendimento. Ou seja deve mais do que a totalidade do seu rendimento.
É urgente inverter este ciclo. Desde logo, pelo lado do consumidor. Quem entra no jogo do crédito fácil deve perceber os riscos que está a correr. Sabendo que quase nunca se destina a bens essenciais de consumo – longe vão os tempos do “fiado” na mercearia do bairro para poder dar jantar à família – as famílias têm de saber dizer não ao acessório que está para além das suas possibilidades efectivas. A solução seria simples e decorre do bom-senso. Primeiro é preciso poder, para depois concretizar o querer do consumo. Mas para isso é preciso não querer parecer mais do que se tem, nem ter mais do que se pode. Bem sei que são valores fora de moda. Mas ainda são os mais seguros e mais sólidos. Evitam grandes dissabores e dão particular sabor ao que se consegue. Por outro lado, é fundamental que as empresas que intervêm neste negócio sejam muito mais exigentes consigo próprias, na regulação ética e deontológica da sua actividade. O que equivale a ser muito mais selectivo na atribuição de crédito ao consumo e incomparavelmente mais sério na propaganda difundida.
Bem maior
Hoje, por cá, festeja-se a liberdade. A tal que só se dá por ela quando falta. Como o ar que respiramos. Banalizada, por vezes, através de um uso corriqueiro, outras tantas ocasiões confundida com aparências e simulações, torna-se moeda de pouco valor. Até pode parecer dispensável. Mas não é.
Não tenhamos dúvidas: se algo caracteriza o melhor da natureza humana é a sua ânsia de liberdade e a sede de auto-determinação. Com efeito, e concordando por uma vez com Sartre, o Homem nasceu para ser livre. Mas esse destino não é um simples equivalente da falta de constrangimentos ou da simples ausência de proibições. Nem um “ai que prazer / não cumprir um dever / ter um livro para ler / e não o fazer”. Ou o tudo poder fazer, sem limite, nem critério. Ser livre é ser escravo da consciência e senhor da vontade. E é pois entre consciência e vontade que devem ser geradas as nossas escolhas, expressões concretas da nossa liberdade.
Mas para ser livre é preciso ter escolhas possíveis. O problema é que, para muitos, as opções disponíveis são reduzidas e predominantemente más. Por outro lado, não dispõem, por vezes, dos instrumentos necessários para fazer as escolhas certas, graças a uma formação deficiente da sua consciência. Ou ainda, estão marcados pelo círculo vicioso de escolhas erradas que outros já antes fizeram e das quais herdam uma pesada factura. É então que se abrem a portas a diferentes escravidões que matam a liberdade. São milhões os que ainda não são livres e, provavelmente, nunca o virão a ser. Vivem enclausurados pelas grades da pobreza, das dependências, da exclusão social e da desesperança.
Outros há que podendo ser livres, prefeririam não ter esse fardo da escolha. Passavam bem sem a liberdade. Têm um certo horror à responsabilidade de escolher. Sonham que alguém o fizesse por eles, deixando-os numa confortável posição de seguidores ou de detractores. Parecendo que não, esta posição tem o seu encanto. É ver o jogo sentado, em vez de arriscar a jogar. É ficar num lugar muito seguro. Cinzento, mas cómodo. Permite contornar a angústia da escolha e o peso das suas consequências. A procura de um Pai autoritário, que ciclicamente observamos, radica aqui.
Mas, na verdade, para quem quer assumir plenamente a sua humanidade e viver uma vida a cores, amar a liberdade é um desígnio irrecusável. É o que nos separa dos rastejantes. Mas não nos chega uma liberdade qualquer. Para quem quer viver a liberdade a sério, o grande desafio é, em cada escolha, não só escolher o bem em vez do mal. É querer ir mais longe. A liberdade mais perfeita é a que é capaz de, entre dois bens, escolher o bem maior. O mais universal e o mais urgente. Esta deveria ser a nossa maior ambição ao ser livres. Mas isto não é nada fácil.
Correio da Manhã, 25/4/2007
Não tenhamos dúvidas: se algo caracteriza o melhor da natureza humana é a sua ânsia de liberdade e a sede de auto-determinação. Com efeito, e concordando por uma vez com Sartre, o Homem nasceu para ser livre. Mas esse destino não é um simples equivalente da falta de constrangimentos ou da simples ausência de proibições. Nem um “ai que prazer / não cumprir um dever / ter um livro para ler / e não o fazer”. Ou o tudo poder fazer, sem limite, nem critério. Ser livre é ser escravo da consciência e senhor da vontade. E é pois entre consciência e vontade que devem ser geradas as nossas escolhas, expressões concretas da nossa liberdade.
Mas para ser livre é preciso ter escolhas possíveis. O problema é que, para muitos, as opções disponíveis são reduzidas e predominantemente más. Por outro lado, não dispõem, por vezes, dos instrumentos necessários para fazer as escolhas certas, graças a uma formação deficiente da sua consciência. Ou ainda, estão marcados pelo círculo vicioso de escolhas erradas que outros já antes fizeram e das quais herdam uma pesada factura. É então que se abrem a portas a diferentes escravidões que matam a liberdade. São milhões os que ainda não são livres e, provavelmente, nunca o virão a ser. Vivem enclausurados pelas grades da pobreza, das dependências, da exclusão social e da desesperança.
Outros há que podendo ser livres, prefeririam não ter esse fardo da escolha. Passavam bem sem a liberdade. Têm um certo horror à responsabilidade de escolher. Sonham que alguém o fizesse por eles, deixando-os numa confortável posição de seguidores ou de detractores. Parecendo que não, esta posição tem o seu encanto. É ver o jogo sentado, em vez de arriscar a jogar. É ficar num lugar muito seguro. Cinzento, mas cómodo. Permite contornar a angústia da escolha e o peso das suas consequências. A procura de um Pai autoritário, que ciclicamente observamos, radica aqui.
Mas, na verdade, para quem quer assumir plenamente a sua humanidade e viver uma vida a cores, amar a liberdade é um desígnio irrecusável. É o que nos separa dos rastejantes. Mas não nos chega uma liberdade qualquer. Para quem quer viver a liberdade a sério, o grande desafio é, em cada escolha, não só escolher o bem em vez do mal. É querer ir mais longe. A liberdade mais perfeita é a que é capaz de, entre dois bens, escolher o bem maior. O mais universal e o mais urgente. Esta deveria ser a nossa maior ambição ao ser livres. Mas isto não é nada fácil.
Correio da Manhã, 25/4/2007
18 abril 2007
O triângulo do fogo
Há cerca de quinhentos anos, estávamos nas vésperas de um dos acontecimentos mais negros na história de Lisboa. Em três dias – de 19 a 21 de Abril de 1506 – num movimento quase espontâneo, gerado por vozes fanáticas que exploraram um sentimento anti-semita pré-existente, libertaram-se demónios que chacinaram sem dó, nem piedade, duas a quatro mil pessoas. Suspeitas de permanecerem fiéis à tradição judaica, apesar de convertidos à força ao cristianismo (cristãos-novos), estas gentes foram trucidadas numa onda de loucura colectiva.
A propósito deste acontecimento é útil aprender com a História.
O populismo para arder necessita, tal como o fogo, de combustível, comburente e calor. Esses elementos constituintes do “triângulo” do fogo precisam estar presentes simultaneamente para que o incêndio ocorra. Façamos o paralelismo: nessa altura, o combustível era representado pelas condições sociais desfavoráveis de crise grave, induzida pela seca, com consequente fome, e agravada pela peste. Ontem, como hoje, o populismo só coloca multidões irracionais em movimento quando beneficia de um contexto de crise que lhe sirva de combustível. Sem ela, não arde. Por isso, sempre que se está perante crises de grande desemprego e pobreza alargada, todos os alertas devem estar monitorizados para este risco de “incêndio” social.
Mas a crise, por si só, não é suficiente. Precisa ainda de comburente. No século XVI, o contexto de anti-semitismo viabilizou a tragédia. Qual oxigénio para o incêndio social, o preconceito em relação ao “outro” – seja ele estrangeiro, judeu ou negro – é essencial para que a combustão se dê. A existência de índices elevados de xenofobia e de racismo, o desenvolvimento de diferentes expressões de choque de civilizações e o medo instilado face a hipotéticas ameaças protagonizadas por um “outro” que nos é apresentado como desumanizado, devem constituir outro eixo de alerta.
Finalmente, na metáfora do fogo, o papel dos que instigaram à selvajaria. Aparentemente dois protagonistas terão incendiado os lisboetas com apelos ao morticínio dos cristãos-novos. Quando perante elevadas cargas de combustível social – crise, desemprego, pobreza – e de comburente – diabolização de um qualquer “outro” – alguém lança uma chama, quase sempre se produz uma grande explosão. Foi isso que aconteceu, em 1506, na capital do reino e que custou a vida a milhares de pessoas. E que se pode reproduzir sempre que o triângulo do fogo social está completo. Por isso, vozes populistas, um pouco por toda a Europa, constituem um perigo sério enquanto incendiários sociais.
Ora, tal como na prevenção e combate ao fogo, urge uma atitude sensata de lutar contra a coexistência e potenciação destes três factores, no mesmo tempo/local. A prevenção faz-se, portanto, combatendo o preconceito que é comburente, a crise que é combustível e os argumentos dos incendiários. Antes que o incêndio comece.
Correio da Manhã, 18 Abril 2007
A propósito deste acontecimento é útil aprender com a História.
O populismo para arder necessita, tal como o fogo, de combustível, comburente e calor. Esses elementos constituintes do “triângulo” do fogo precisam estar presentes simultaneamente para que o incêndio ocorra. Façamos o paralelismo: nessa altura, o combustível era representado pelas condições sociais desfavoráveis de crise grave, induzida pela seca, com consequente fome, e agravada pela peste. Ontem, como hoje, o populismo só coloca multidões irracionais em movimento quando beneficia de um contexto de crise que lhe sirva de combustível. Sem ela, não arde. Por isso, sempre que se está perante crises de grande desemprego e pobreza alargada, todos os alertas devem estar monitorizados para este risco de “incêndio” social.
Mas a crise, por si só, não é suficiente. Precisa ainda de comburente. No século XVI, o contexto de anti-semitismo viabilizou a tragédia. Qual oxigénio para o incêndio social, o preconceito em relação ao “outro” – seja ele estrangeiro, judeu ou negro – é essencial para que a combustão se dê. A existência de índices elevados de xenofobia e de racismo, o desenvolvimento de diferentes expressões de choque de civilizações e o medo instilado face a hipotéticas ameaças protagonizadas por um “outro” que nos é apresentado como desumanizado, devem constituir outro eixo de alerta.
Finalmente, na metáfora do fogo, o papel dos que instigaram à selvajaria. Aparentemente dois protagonistas terão incendiado os lisboetas com apelos ao morticínio dos cristãos-novos. Quando perante elevadas cargas de combustível social – crise, desemprego, pobreza – e de comburente – diabolização de um qualquer “outro” – alguém lança uma chama, quase sempre se produz uma grande explosão. Foi isso que aconteceu, em 1506, na capital do reino e que custou a vida a milhares de pessoas. E que se pode reproduzir sempre que o triângulo do fogo social está completo. Por isso, vozes populistas, um pouco por toda a Europa, constituem um perigo sério enquanto incendiários sociais.
Ora, tal como na prevenção e combate ao fogo, urge uma atitude sensata de lutar contra a coexistência e potenciação destes três factores, no mesmo tempo/local. A prevenção faz-se, portanto, combatendo o preconceito que é comburente, a crise que é combustível e os argumentos dos incendiários. Antes que o incêndio comece.
Correio da Manhã, 18 Abril 2007
11 abril 2007
Dever e Gratidão
“Se servistes a Pátria e ela vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, e ela o que costuma.”
P. António Vieira
Um dos nossos maiores defeitos enquanto Povo é a ingratidão perante os que servem Portugal. Somos vezes de mais, nesse domínio, grosseiros e insensíveis. Não cuidamos de reconhecer e agradecer àqueles que serviram o Bem comum, desdenhando da sua competência, da sua intenção e da sua virtude. Escondemo-nos atrás do “não fizeram mais que a sua obrigação!” ou pior ainda “se o fizeram é porque tinham algum interesse”. Como sublinhava Flaubert “aos incapazes de gratidão nunca lhes faltam razões para não a ter”. E nós por costume, somos incapazes de dizer obrigado, tornando-nos assim seres vulgares e gente sem nobreza.
Note-se que ser grato, nada tem a ver com ser servil ou bajulador. Disso, infelizmente, temos de sobra. A gratidão exerce-se sobretudo quando já não é possível ao agradecido retribuir ou recompensar tal gesto. Quando não há risco de ter alguma coisa a receber. Quando o visado está na “mó de baixo” ou quando é vítima de ataques vários, entre os quais o do esquecimento.
Trago alguns exemplos para não ficar por generalidades. Não temos vergonha enquanto Povo, que Gaspar Castelo Branco, o mais alto dirigente público assassinado por terroristas das FP 25, em 1986, nunca tenha sido homenageado e condecorado pelo Estado português? Não temos coragem para corrigir a forma vergonhosa como nos portámos, enquanto País, no momento da sua morte? Ou não temos nenhum peso na consciência, por termos deixado que personalidades políticas e servidores do Estado que serviram Portugal com tudo o que tinham e sabiam, como Leonor Beleza ou Roberto Carneiro tivessem sido triturados por notícias e processos judiciais que se vieram a provar como injustificados? Não nos escandalizamos que, inúmeras vezes, quando um servidor do Estado, seja membro de força de segurança ou outro, morre em serviço, atribuamos aos seus dependentes uma mísera pensão, normalmente depois de meses eternos de espera? Que gente somos nós?
Mas se por um lado, esta constatação nos deve fazer corar de vergonha – e fazer-nos corrigir este defeito colectivo – por outro, em nada deve beliscar o nosso sentido de dever no serviço à Pátria. Porque mesmo que esta seja ingrata, servi-la, bem como à humanidade no seu todo, é um dever. Como diz Vieira, é “fazer o que devemos”. Da melhor forma que sabemos e podemos, sem esperar recompensa. Infelizmente, nos nossos dias, desvalorizamos esta noção de serviço ao bem comum e à causa pública. Privatizamos os nossos interesses e descuramos a construção colectiva da comunidade onde nos inserimos. Não damos exemplo, nem transmitimos aos nossos filhos a paixão pelo serviço a Portugal. Cultivamos mesmo um cepticismo cínico que goza com quem “estupidamente” segue esse caminho. Mas não tenhamos dúvidas: assim, cavamos a nossa vala comum.
Correio da Manhã, 11 de Abril
P. António Vieira
Um dos nossos maiores defeitos enquanto Povo é a ingratidão perante os que servem Portugal. Somos vezes de mais, nesse domínio, grosseiros e insensíveis. Não cuidamos de reconhecer e agradecer àqueles que serviram o Bem comum, desdenhando da sua competência, da sua intenção e da sua virtude. Escondemo-nos atrás do “não fizeram mais que a sua obrigação!” ou pior ainda “se o fizeram é porque tinham algum interesse”. Como sublinhava Flaubert “aos incapazes de gratidão nunca lhes faltam razões para não a ter”. E nós por costume, somos incapazes de dizer obrigado, tornando-nos assim seres vulgares e gente sem nobreza.
Note-se que ser grato, nada tem a ver com ser servil ou bajulador. Disso, infelizmente, temos de sobra. A gratidão exerce-se sobretudo quando já não é possível ao agradecido retribuir ou recompensar tal gesto. Quando não há risco de ter alguma coisa a receber. Quando o visado está na “mó de baixo” ou quando é vítima de ataques vários, entre os quais o do esquecimento.
Trago alguns exemplos para não ficar por generalidades. Não temos vergonha enquanto Povo, que Gaspar Castelo Branco, o mais alto dirigente público assassinado por terroristas das FP 25, em 1986, nunca tenha sido homenageado e condecorado pelo Estado português? Não temos coragem para corrigir a forma vergonhosa como nos portámos, enquanto País, no momento da sua morte? Ou não temos nenhum peso na consciência, por termos deixado que personalidades políticas e servidores do Estado que serviram Portugal com tudo o que tinham e sabiam, como Leonor Beleza ou Roberto Carneiro tivessem sido triturados por notícias e processos judiciais que se vieram a provar como injustificados? Não nos escandalizamos que, inúmeras vezes, quando um servidor do Estado, seja membro de força de segurança ou outro, morre em serviço, atribuamos aos seus dependentes uma mísera pensão, normalmente depois de meses eternos de espera? Que gente somos nós?
Mas se por um lado, esta constatação nos deve fazer corar de vergonha – e fazer-nos corrigir este defeito colectivo – por outro, em nada deve beliscar o nosso sentido de dever no serviço à Pátria. Porque mesmo que esta seja ingrata, servi-la, bem como à humanidade no seu todo, é um dever. Como diz Vieira, é “fazer o que devemos”. Da melhor forma que sabemos e podemos, sem esperar recompensa. Infelizmente, nos nossos dias, desvalorizamos esta noção de serviço ao bem comum e à causa pública. Privatizamos os nossos interesses e descuramos a construção colectiva da comunidade onde nos inserimos. Não damos exemplo, nem transmitimos aos nossos filhos a paixão pelo serviço a Portugal. Cultivamos mesmo um cepticismo cínico que goza com quem “estupidamente” segue esse caminho. Mas não tenhamos dúvidas: assim, cavamos a nossa vala comum.
Correio da Manhã, 11 de Abril
06 abril 2007
Lavar os pés?!!
Aproximam-se os dias mais sagrados do calendário cristão. A Páscoa, núcleo central da fé cristã, desdobra-se por toda uma semana que vai da aclamação na entrada em Jerusalém, até à “derrota” da crucificação que é ultrapassada pela glória da ressurreição, três dias depois. A este propósito e independentemente das convicções religiosas de cada um, mesmo para aqueles que nada têm a ver com o cristianismo, vale a pena rever a fascinante figura histórica de Jesus, nalguns dos seus traços essenciais.
Judeu de há dois mil anos, nascido em família humilde, ainda que da linhagem real de David, esta figura mudou a história da humanidade e, mais do que isso, continua a poder transformá-la significativamente. Entre tudo o que disse e fez, multiplicaram-se os paradoxos e os inesperados. Quase nada foi linear ou óbvio. Mas nessa surpreendente cascata de gestos e palavras, encontramos inspiração para o que poderia ser um mundo melhor. Independentemente de sermos cristãos.
Nesse contexto, situemo-nos, nestes dias, na descrição de uma das etapas finais – e centrais - da vida de Jesus. Depois de ter entrado em Jerusalém aclamado pelas multidões, Ele sabe o que o espera nos dias seguintes. As multidões mudam com excessiva facilidade e não há nada mais volátil que a fama. Nos bastidores, os poderes instalados temem-No e procuram, por todas as vias, derrotá-Lo. Antecipando tudo o que vai acontecer, reúne os Seus amigos e seguidores num jantar. Antes de o iniciar, para escândalo dos seus comensais – “Senhor, tu lavares-me os pés? Nunca!”, diz o seu amigo Pedro - pega numa bacia e numa toalha e começa a lavar os pés aos que estavam com Ele.
Ora no contexto da época, esse gesto era da responsabilidade dos servos humildes. Á chegada dos convidados lavavam-lhes os pés sujos e empoeirados do caminho, para que ficassem mais confortáveis. Mas nunca o senhor da casa fazia tal gesto. Como era então possível que Aquele que se anunciava como o Filho de Deus se humilhasse aos olhos dos seus contemporâneos? A razão é simples: quanto maior, mais servidor dos outros. Aí está a verdadeira grandeza. Mas também a provocação. Nas suas palavras, “ora se eu, sendo Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.”
Olhemos este desafio somente com os nossos olhos laicos, mesmo sem fé ou compromisso religioso.
Tal como naquele tempo, ainda hoje temos muita repugnância em aderir a esta inversão das nossas expectativas. Ambicionar o servir - e não o ser servido - como meta e expressão de plenitude muda tudo. Essa mensagem verdadeiramente revolucionária, poderia ser inspiradora para os nossos dias. Se cada um de nós, particularmente os que têm mais responsabilidade, onde quer que seja, procurasse acima de tudo servir humildemente, o mundo seria muito diferente. Mas nunca é tarde para começar.
Correio da Manhã, 4 Abril 2007
Judeu de há dois mil anos, nascido em família humilde, ainda que da linhagem real de David, esta figura mudou a história da humanidade e, mais do que isso, continua a poder transformá-la significativamente. Entre tudo o que disse e fez, multiplicaram-se os paradoxos e os inesperados. Quase nada foi linear ou óbvio. Mas nessa surpreendente cascata de gestos e palavras, encontramos inspiração para o que poderia ser um mundo melhor. Independentemente de sermos cristãos.
Nesse contexto, situemo-nos, nestes dias, na descrição de uma das etapas finais – e centrais - da vida de Jesus. Depois de ter entrado em Jerusalém aclamado pelas multidões, Ele sabe o que o espera nos dias seguintes. As multidões mudam com excessiva facilidade e não há nada mais volátil que a fama. Nos bastidores, os poderes instalados temem-No e procuram, por todas as vias, derrotá-Lo. Antecipando tudo o que vai acontecer, reúne os Seus amigos e seguidores num jantar. Antes de o iniciar, para escândalo dos seus comensais – “Senhor, tu lavares-me os pés? Nunca!”, diz o seu amigo Pedro - pega numa bacia e numa toalha e começa a lavar os pés aos que estavam com Ele.
Ora no contexto da época, esse gesto era da responsabilidade dos servos humildes. Á chegada dos convidados lavavam-lhes os pés sujos e empoeirados do caminho, para que ficassem mais confortáveis. Mas nunca o senhor da casa fazia tal gesto. Como era então possível que Aquele que se anunciava como o Filho de Deus se humilhasse aos olhos dos seus contemporâneos? A razão é simples: quanto maior, mais servidor dos outros. Aí está a verdadeira grandeza. Mas também a provocação. Nas suas palavras, “ora se eu, sendo Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.”
Olhemos este desafio somente com os nossos olhos laicos, mesmo sem fé ou compromisso religioso.
Tal como naquele tempo, ainda hoje temos muita repugnância em aderir a esta inversão das nossas expectativas. Ambicionar o servir - e não o ser servido - como meta e expressão de plenitude muda tudo. Essa mensagem verdadeiramente revolucionária, poderia ser inspiradora para os nossos dias. Se cada um de nós, particularmente os que têm mais responsabilidade, onde quer que seja, procurasse acima de tudo servir humildemente, o mundo seria muito diferente. Mas nunca é tarde para começar.
Correio da Manhã, 4 Abril 2007
01 abril 2007
Dispostos a dar?
Cinquenta anos de utopia construída é obra. Contra ventos e marés, cumpriu-se por estes dias meio século de existência do que hoje chamamos União Europeia. Apesar de não termos estado entre os seis fundadores, devemos festejar este momento histórico desta Europa a que pertencemos. Mas, em tempo de festa, é uma boa oportunidade para regressar às origens e actualizar o projecto, revivificando-o.
Porque é que nasceu a Europa?
É bom lembrar que a ideia de uma comunidade europeia surge no contexto de um continente em escombros, após a IIª Guerra mundial, ainda mais brutal que a primeira. Apesar de só indirectamente termos sentido os efeitos dessa catástrofe é importante não a esquecer, bem como ter presente que o risco da sua repetição nunca está definitivamente afastado. O melhor antídoto para evitar novos tempos sombrios é persistir na inspiração dos que, a partir de uma Europa dilacerada e dividida entre inimigos, ousaram pensar diferente.
Com efeito, os homens que lutaram por este sonho que se tornou realidade – Schuman, Adenauer, Monnet, entre outros – sabiam que a construção de um futuro de paz, num continente tradicionalmente devorado por guerras cíclicas, só seria possível num quadro de uma maior justiça e redistribuição solidária da riqueza. Mas também de interdependência e com um mercado comum, de livre circulação de bens, capitais e trabalhadores. E o mais extraordinário é que foram capazes de o fazer entre potências inimigas, saídas de uma guerra. Ao colocarem o seu futuro nas mãos uns dos outros, criaram condições para que ninguém fosse dispensável e que se tornasse inviável uma nova Guerra. Dizia Schuman: “A Europa unida prefigura a solidariedade universal do futuro..Estendemos a mão aos nossos inimigos, não apenas para nos reconciliarmos, mas para construirmos juntos a Europa do amanhã” Como resultado, tivemos cinquenta anos de paz e de um desenvolvimento extraordinário. Essa é a perspectiva fundadora do projecto europeu, com a qual se deve estar em sintonia absoluta. Por isso, para o nosso tempo é fundamental recuperar esta inspiração original da fundação da Comunidade Europeia, percebendo que é no repartir que está o ganho. Só teremos sucesso juntos.
Ora, entre nós, temos da União Europeia, tantas vezes, uma visão utilitarista e egoísta, de quem está sempre à espera de receber alguma coisa, nomeadamente, fundos comunitários. Discutimos muito pouco o que temos a dar. Evitamos pensar sobre o que podemos contribuir para que concretize o princípio de solidariedade com os mais pobres, que aguardam à porta da União a sua oportunidade de entrar. Mas essa é mesmo a questão fundamental: o que estamos dispostos a dar? Temo que a resposta possa ser “nada” ou “muito pouco”. Mas se assim o for, saibamos que estamos fora do espírito europeu.
Na comemoração do cinquentenário, numa ocasião histórica em que um Português, pela primeira vez, preside aos destinos da Comissão Europeia, é uma boa altura para reforçarmos a nossa pertença a este projecto, estando disponíveis para dar o melhor de nós, para continuar a construir um continente de paz.
Correio da Manhã, 28 de Março 2007
Porque é que nasceu a Europa?
É bom lembrar que a ideia de uma comunidade europeia surge no contexto de um continente em escombros, após a IIª Guerra mundial, ainda mais brutal que a primeira. Apesar de só indirectamente termos sentido os efeitos dessa catástrofe é importante não a esquecer, bem como ter presente que o risco da sua repetição nunca está definitivamente afastado. O melhor antídoto para evitar novos tempos sombrios é persistir na inspiração dos que, a partir de uma Europa dilacerada e dividida entre inimigos, ousaram pensar diferente.
Com efeito, os homens que lutaram por este sonho que se tornou realidade – Schuman, Adenauer, Monnet, entre outros – sabiam que a construção de um futuro de paz, num continente tradicionalmente devorado por guerras cíclicas, só seria possível num quadro de uma maior justiça e redistribuição solidária da riqueza. Mas também de interdependência e com um mercado comum, de livre circulação de bens, capitais e trabalhadores. E o mais extraordinário é que foram capazes de o fazer entre potências inimigas, saídas de uma guerra. Ao colocarem o seu futuro nas mãos uns dos outros, criaram condições para que ninguém fosse dispensável e que se tornasse inviável uma nova Guerra. Dizia Schuman: “A Europa unida prefigura a solidariedade universal do futuro..Estendemos a mão aos nossos inimigos, não apenas para nos reconciliarmos, mas para construirmos juntos a Europa do amanhã” Como resultado, tivemos cinquenta anos de paz e de um desenvolvimento extraordinário. Essa é a perspectiva fundadora do projecto europeu, com a qual se deve estar em sintonia absoluta. Por isso, para o nosso tempo é fundamental recuperar esta inspiração original da fundação da Comunidade Europeia, percebendo que é no repartir que está o ganho. Só teremos sucesso juntos.
Ora, entre nós, temos da União Europeia, tantas vezes, uma visão utilitarista e egoísta, de quem está sempre à espera de receber alguma coisa, nomeadamente, fundos comunitários. Discutimos muito pouco o que temos a dar. Evitamos pensar sobre o que podemos contribuir para que concretize o princípio de solidariedade com os mais pobres, que aguardam à porta da União a sua oportunidade de entrar. Mas essa é mesmo a questão fundamental: o que estamos dispostos a dar? Temo que a resposta possa ser “nada” ou “muito pouco”. Mas se assim o for, saibamos que estamos fora do espírito europeu.
Na comemoração do cinquentenário, numa ocasião histórica em que um Português, pela primeira vez, preside aos destinos da Comissão Europeia, é uma boa altura para reforçarmos a nossa pertença a este projecto, estando disponíveis para dar o melhor de nós, para continuar a construir um continente de paz.
Correio da Manhã, 28 de Março 2007
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